Ser mãe em tempos de Black Mirror

Imagem capturada do episódio Arkangel, 4a. temporada de Black Mirror

Você se distrai um minuto e seu filho some no parquinho/no shopping/na rua. Ou engasga mamando ou comendo pipoca. É desesperador e quase todos os pais e mães já passaram por um aperto desses na vida, quando o coração para, o ar falta,como eu fui me distrair, como deixei isso acontecer? Ser mãe é não ter o controle de nada, muito menos sobre o destino do seu filho mesmo cercando- o de todos os cuidados, repita isso ao sair da maternidade e por todos os dias de sua vida a partir de então.

E já há algum tempo mostramos que estamos abertos para tudo que possam nos oferecer para tentar driblar esse desamparo. Aceitamos, sem problematizar muito, as câmeras nas creches, que nos permitem assistir a um verdadeiro Big Brother dos nossos filhos na escola. Ao menor sinal de caos, tão comum quando existem várias crianças juntas, ligamos e chamamos a coordenadora, onde já se viu deixar meu filho ser mordido por outra criança? Cadê a professora? Também não nos opusemos às mochila-cabresto, com uma guia “de segurança” que pode ser puxada assim que nossos filhos ensaiam uma fuga em um lugar movimentado, evitando assim o desgaste de ter de explicar pela milésima vez que é necessário dar sempre a mão para o papai e a mamãe para não se perder. Talvez a gente não tenha se atentado para o absurdo que se avizinha por termos encarado esses novos itens como banais em um mundo onde, em nome da segurança, já foram inventados desde protetores de tomadas a babás eletrônicas, capazes de permitir que a gente se antecipe ao primeiro sinal de choro e desconforto dos nossos filhos (que talvez virassem para o lado e adormecessem sozinhos sem o nosso auxílio depois daquele gemido, jamais saberemos).

E qual seria a próxima invenção para nos ajudar a manter a sanidade mental nesse salto no abismo chamado maternidade?, poderíamos nos perguntar. Black Mirror, série da Netflix, uma “antologia de ficção científica”, segundo ela mesma, arrisca algumas respostas a essa pergunta, sempre tendo a tecnologia como pano de fundo. O segundo episódio da quarta temporada da série, “Arkangel”, conta a história de Marie, vivida pela atriz americana Rosemarie DeWitt. Ela é mãe solo e se mostra extremamente fragilizada após a filha sumir por alguns longos minutos, assim que se distrai conversando com outra mãe. Traumatizada, aceita participar de um experimento vendido como “super seguro”: o implante de uma espécie de chip na cabeça da filha, a pequena Sara. Logo descobre que além de saber a localização da menina, também consegue informações sobre a saúde da garota, além de impedir que veja cenas impróprias que a vida tem a oferecer a todo o instante, uma espécie de classificação indicativa do mundo real. Violência? Nem pensar. Sangue, palavrões e até o cachorro do vizinho que assusta a menina com seus latidos acabam “censurados” pela mãe preocupada. Em vez de ver a cara de brava do bicho, dentes cerrados, Sara vê uma imagem borrada, ininteligível. O susto passa, mas não porque ela ganhou autoconfiança, e sim porque não precisa mais enfrentar a imagem aterradora do cachorro diariamente. Clicando em outro botão, Marie descobre ser possível assistir ao que que a filha está vendo, em tempo real. Será que está bem na escola/com a babá/com o avô? O chip “retransmite as imagens óticas” da criança, ou seja, você pode espioná-la, tudo sempre em nome de sua segurança. Não precisa conhecer muito a mente humana para saber que esse tipo de controle é irresistível, principalmente para mães.

Mas, fiquem tranquilos, não vou dar spoilers. Termino por aqui dizendo que Sara passa parte da vida sendo poupada de tudo que possa lhe causar dor e sofrimento e os conflitos não tardam a aparecer. O auge da crise chega com a adolescência, claro, esse período cabeludo que faz que a gente sinta saudades das peripécias dos nossos filhos quando crianças.

E se engana quem pensa que esse futuro pintado por Black Mirror está longe de virar realidade. Uma empresa dos Estados Unidos já colocou o chip “à disposição” de seus funcionários com as melhores das boas intenções, claro. Ele traz “comodidade”, abolindo o uso de crachás e senhas. Também oferece “segurança”, dizem. Os cachorros, aqueles que inspiraram as coleiras para crianças, já carregam chips. Não vai demorar nada para oferecerem esse serviço na maternidade para evitar trocas de bebês e sequestros, pode apostar. 

Claro que saberíamos onde está a menina Madeleine McCain se ela tivesse um chip implantado. E também o destino de várias outras crianças desaparecidas. Poderíamos também impedir que nossos filhos fossem vítimas de abuso sexual. E ainda teríamos como saber a identidade de seus abusadores. Poderíamos solucionar sequestros, impedir que os adolescentes se envolvessem com drogas e más companhias, etc, etc, etc. Sim, sim e sim. Mas não temos esse direito, simplesmente não temos o direito de invadir a privacidade dos nossos filhos. As discussões sobre até onde podemos ir sempre são eclipsadas quando o medo, esse bicho de sete cabeças, aparece. Mas ele é nosso convidado desde que damos à luz nossos filhos, simplesmente chega, puxa uma cadeira e se instala em nossa vida, acostume-se se não quiser pirar. 

Imagina se seus pais pudessem ter assistido, de camarote, àquele fora que você tomou no ensino médio? E se fossem propor uma DR cada vez que te vissem não lidando bem com algo que você achou por bem não dividir com mais ninguém? Viver se tornaria insuportável. Claro que temos a obrigação de educar nossos filhos e continuamos querendo saber por onde andam e com quem estão. Mas para conseguir essa resposta eu prefiro perguntar, em vez de bisbilhotar.

Estadão