Cresce o número de peças teatrais inspiradas em filmes
O quadrilátero amoroso de “Sexo, Mentiras e Videotape” deixou a Louisiana, cenário do filme de Steven Soderbergh, para se recombinar num teatro perto de você. O clã que se despedaça em “Festa de Família” também largou a Dinamarca para lavar a roupa suja em palco brasileiro. Ah, sim, e o John Travolta cheio de enchimentos de “Hairspray” (feito no original de John Waters pelo travesti Divine) emprestou o figurino para Edson Celulari entrar em cena por aqui.
São cada vez mais frequentes no teatro brasileiro produções que usam roteiros cinematográficos como base dramatúrgica. Em São Paulo, pelo menos dois espetáculos em cartaz atualmente têm em filmes suas matrizes: “Play” (no Nair Bello) é decalcado de “Sexo…” e “Festa de Família” (no Sesc av. Paulista) empresta personagens e diálogos da fita nórdica homônima. Um terceiro, o musical “Hairspray”, estreia no próximo dia 26, no teatro Bradesco.
Ivan Sugahara, diretor de “Play”, reconhece que tomar como ponto de partida um enredo conhecido do público “ajuda comercialmente”, mas o importante é que o filme “pesca questões contemporâneas”.
Antes da montagem de agora (que rendeu ao autor Rodrigo Nogueira uma indicação ao Prêmio Shell-Rio), ele dirigiu “Memória Afetiva de um Amor Esquecido”, transposição de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”.
Mudanças sutis
Nos dois casos, são feitas leves alterações nas histórias originais, e os diálogos são retrabalhados.
Em “Sexo…”, o personagem gravava depoimentos de mulheres porque era impotente; na peça, ele é videoartista.
Já “Memória Afetiva…” apresenta o programa de apagamento de lembranças indesejadas como um dentre muitos produtos de uma empresa especializada na comercialização da felicidade.
“Quanto menos se fica preso ao original, melhor. Quem for ao teatro esperando uma exaltação do filme vai se decepcionar. É outra mídia. Tanto o público quanto o criador devem ter isso como norte”, observa Sugahara, que se descreve como “mais cinéfilo do que teatrófilo” e, nas releituras, busca “teatralizar procedimentos de cinema, como edição e close”.
Bruce Gomlevski, ator e diretor de “Festa de Família”, faz coro. “Tentei não usar o filme como exemplo. Não voltei a ele durante os ensaios, senão ficaria um franchising.”
“Festa…”, de Thomas Vinterberg, testemunha o choque causado pela revelação de que um patriarca (cujos 60 anos são o motivo da celebração) abusou sexualmente dos filhos. O filme foi rodado segundo a cartilha do Dogma 95, que preconizava um cinema livre de todo artificialismo (da luz e do cenário a inserções na pós-produção).
O inglês David Eldridge adaptou o roteiro para o teatro com ajustes mínimos. O fantasma da filha que cometeu suicídio, apenas sugerido no cinema, aqui adquire corpo.
Gomlevski questiona a possível “vantagem competitiva” dada pela raiz fílmica da peça (“sobretudo porque “Festa” não é um blockbuster”). Mas aponta a “importação” de roteiros como isca para atrair o público jovem, geralmente mais afeito ao cinema do que ao teatro.
Miguel Falabella, diretor de “Hairspray”, contesta: “Para aumentar o público jovem no teatro, vale mais a temática [do que recorrer ao cinema]. E a mídia brasileira poderia ser mais carinhosa com as peças.”
por LUCAS NEVES
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| Imprimir artigo | Este artigo foi escrito por @AudienciaeTV em 09/02/2010 às 18:47, e está arquivado em Notícias, Teatro. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site. |






